december issue
THE CAR
Nara tinha apenas 4 anos quando deixou a Coreia do Sul pela primeira vez, os olhos pequenos ainda molhados de lágrimas ao ver tudo de cima pela janela do avião, as coisas se tornarem pequenas, até ficarem distantes o suficiente para não conseguir ver mais nada de seu acento. Não foi preciso muito mais do que isso para ela se distrair e finalmente parar de chorar sobre os amigos que estava deixando para trás – porque ela chorou muito, muito mesmo, não importava a maneira doce que sua mãe explicasse que elas seriam muito mais felizes na China, que faria novos amigos e as coisas seriam mais fáceis. Se Eunbin soubesse que bastaria algo novo o suficiente como o avião para distrair a filha, ela com certeza não teria gasto toda sua paciência tentando acalmá-la como fez nos dias anteriores.Quando chegaram, 3 horas depois, Deshun vestia o maior sorriso no rosto e segurava dois buquês para receber a noiva e a futura enteada. Nara gostava de Deshun, gostava tanto que correu em direção ao homem assim que o viu, disparando a falar sobre como foi legal andar de avião, quase esquecendo que o meio de transporte tinha a levado de um país para o outro. Semanas depois, estava matriculada em uma escola, aprendendo um novo idioma, uma nova cultura. Meses depois sua mãe e Deshun estavam oficialmente casados. Dois anos depois seus pais estavam grávidos de sua irmã; Nara tinha apenas 6 anos quando descobriu o que era amor, no mesmo momento em que conheceu Lina, sua irmã mais nova.A casa de Deshun, antes vazia, aos poucos foi se tornando barulhenta, colorida, com brinquedos espalhados nos diversos cômodos, e com o passar do tempo os brinquedos se tornaram produtos de cosméticos ou qualquer outra bugiganga que as duas adolescentes largavam pelo espaço. Ele era um homem ocupado, cirurgião plástico de renome em Pequim, havia dias em que chegava tarde demais para o jantar e dias em que saía cedo demais para o café, mas nunca um que ele não aparecesse na porta do quarto das filhas para verificar se estavam seguras em seus próprios quartos, não importava a hora. Nara cresceu vendo o pai - porque ele nunca foi um padrasto, sempre foi um pai para si - chegar com as mãos cansadas e ainda assim usá-las para afastar o cabelo do rosto de sua mãe enquanto ela dormia. Cresceu entendendo, aos poucos, que cuidar de alguém podia ser uma profissão, podia ser um dom, mas acima de tudo poderia ser as duas coisas ao mesmo tempo.Foi durante uma tarde de domingo, quando Nara tinha 17 anos, que Eunbin mencionou pela primeira vez a dor de cabeça, como se fosse algo passageiro e sem peso, crente de que deveria ser o estresse de seu próprio trabalho, e ninguém questionou porque fazia sentido, já que a mulher sempre carregou tudo com leveza demais para que alguém percebesse quando o peso estava aumentando.Mas as dores de cabeça voltaram. E voltaram de novo.Foi Deshun quem insistiu nos exames, com a firmeza específica de quem sabe o que está temendo e ainda assim precisa saber. Nara estava na sala quando ele saiu do escritório com os resultados na mão e o rosto composto de um jeito que ela nunca tinha visto antes – o rosto do médico, não o do pai. Ela entendeu antes mesmo que ele abrisse a boca, mas mesmo assim assustou ouvir: Glioblastoma. A palavra caiu no meio da sala de estar e bagunçou tudo dentro dos quatro. Tantos anos depois e agora era a vez de Nara se ver na posição de Eunbin, tentando acalmar Lina que entre os três era a mais expressiva, a que começou a chorar sem parar, que não teve problema em mostrar que estava aterrorizada com a ideia de perder a mãe. Agora as duas tentavam convencer a caçula de que tudo ficaria bem, mas Lina não era mais criança e nem a vista mais bonita que um avião pudesse proporcionar conseguiria acalma-la.Os meses que se seguiram foram feitos de viagens a hospitais, de segunda e terceira opiniões, de Lina chorando no banheiro achando que ninguém ouvia e de Eunbin dizendo "eu estou bem" com uma convicção que foi, gradualmente, ficando mais difícil de sustentar. Deshun operava outras pessoas durante o dia e à noite lia teses oncologicas com uma obstinação que Nara reconhecia como desespero, porque era o mesmo que sentia.Foi nesses meses que ela percebeu o que queria fazer com a vida – ou talvez apenas percebeu o que sempre soube, e só precisou de uma dor grande o suficiente para parar de ignorar. Não eram as mãos do padrasto reconstruindo rostos que a chamavam, embora ela as admirasse. Era outra coisa. Era o coração. Era a ideia de que havia um órgão no centro do peito responsável por tudo, por cada segundo de presença de uma pessoa no mundo, e que existiam pessoas capazes de operar dentro dele sem deixá-lo parar. Ela queria ser uma dessas pessoas."Cardiovascular", ela disse a Deshun numa noite em que os dois ficaram acordados depois que Eunbin e Lina dormiram. Ele ficou em silêncio por um momento, olhando para a xícara de chá na mão, e então assentiu devagar, entendendo exatamente de onde a decisão vinha e escolhesse não dizer em voz alta.Eunbin faleceu numa manhã de março, quando Nara tinha 19 anos. O sol entrava pela janela do quarto de hospital de um jeito etéreo, e Nara ficou sentada ao lado da cama por um tempo longo depois que tudo acabou, segurando a mão que já não respondia ao aperto, tentando entender como o mundo do lado de fora do vidro continuava funcionando. Eles voltaram para a mansão que Eunbin havia transformado em lar, e por algumas semanas o silêncio voltou a ocupar os cômodos, diferente do silêncio vazio de antes – mais pesado, mais cheio de ausência. Os produtos de cosméticos que Eunbin deixara na penteadeira ficaram lá por meses. Ninguém tocou neles.Os três tentaram manter o legado da matriarca, tentaram não se afastar mas Deshun inevitavelmente começou a se afundar em trabalho, Lina decidiu estudar em Hong Kong e a faculdade de medicina também não foi gentil em ocupar quase por completo a vida de Nara – mas ela ainda checava a irmã. Ligava durante os intervalos, trocava mensagens e assim como aprendeu com o pai: conferia se a irmã estava segura em seu quarto. A vida começou a passar rápido demais e enquanto ela estava terminando a residência em Shangai, após alguns tantos relacionamentos fracassados, Lina decidiu que seria mãe solo, e pela primeira vez Nara viu o pai se mostrar tão veemente contra qualquer coisa que as filhas quisessem.Xinyue nasceu em março, no mesmo mês em que Eunbin havia partido anos atrás, e Deshun segurou a neta com um sorriso que curava qualquer ferida aberta pelas palavras duras que trocou com sua caçula. A verdade era que a sobrinha havia chegado no mundo inteira, saudável, com uma testa pequenininha e um choro irritante e perfeito – e foi impossível olhar para ela e não entender, imediatamente, a decisão da irmã.Mas os Shen não colecionavam felicidades por tempo demais… Quatorze anos depois, numa tarde comum com pista molhada e um carro que não freou a tempo, Lina deu entrada no hospital e não saiu mais. Ficou três semanas em coma antes de estabilizar, e mesmo depois de estabilizar, não voltou. Os médicos usavam palavras cuidadosas, o tom que Nara de vez em quando tinha que usar com seus próprios pacientes.Deshun, por sua vez, envelheceu dez anos em duas semanas.O processo para que se tornasse guardiã temporária foi burocrático e frio da maneira que só processos legais conseguem ser, mas não havia discussão real a se ter – não havia mais ninguém para cuidar de Xinyue enquanto eles esperavam Lina acordar do coma. Nara assinou os papéis e levou Xinyue para casa com a consciência plena de que não estava preparada para criar uma pré-adolescente, de que jamais estaria, e por isso não tinha filhos, mas agora sua opinião não importava.Foi Deshun quem, ainda em 2026, sugeriu o Taohua Villas. Um condomínio fechado, silencioso, seguro – o tipo de lugar onde uma criança poderia crescer com espaço, e onde uma cirurgiã com plantões imprevisíveis conseguiria ao menos dormir sem travar a porta duas vezes com medo. Nara não queria admitir que fazia sentido porque amava demais o apartamento que adquiriu com seu próprio esforço, mas ele se tornou pequeno para as duas em poucas semanas, e ela acreditava que em breve receberia uma multa dos vizinhos por conta dos gritos que a sobrinha costumava direcionar a si.A casa em Longan, em compensação, se mostrou grande o suficiente para Xinyue sequer cruzar o caminho de Nara, se assim desejasse.Nara tem quase 38 anos e uma carreira que lhe custou quase tudo — os relacionamentos que não sobreviveram aos plantões, os aniversários perdidos, os feriados e fins de semana que existiam apenas no calendário. Ela era boa no que fazia, boa o suficiente para que o hospital cogitasse seu nome para chefe do departamento de cirurgia cardiovascular, e havia uma parte dela que queria aquilo com uma ambição quase envergonhada de si mesma, parecendo que desejar mais ainda, depois de tudo que já havia conquistado, fosse ingratidão. Mas ela queria. Queria o cargo, queria liderar a equipe que estava ajudando a montar, queria conduzir mais pesquisas, publicar mais periódicos, queria um dia dar aulas em alguma universidade e ser o tipo de professora que faz um aluno mudar de especialidade só de ouvi-la falar. Tinha planos, tinha metas com datas, tinha uma planilha no computador que Lina teria achado hilária e Deshun teria achado completamente compreensível.O que ela não tinha era um plano para Xinyue. Assim como a casa nova, Nara ainda precisa aprender a lidar com o barulho novo de uma adolescente que ainda não decidiu se prefere odiar ou ignorar a tia que de repente virou responsável por ela e a tirou de Hong Kong.
one point perspective
Talvez vendo de longe, ou ouvindo algumas histórias, Nara pode parecer uma pessoa fria, mas na verdade se considera apenas econômica, - economiza palavras, emoções e energia - e as pessoas ao redor tendem a interpretar isso como frieza e distância, quando na verdade é apenas a maneira que ela aprendeu a funcionar. Prefere ser direta, funcional, não investir no que não vai dar resultado.Aprendeu cedo que havia sempre alguém precisando que ela estivesse de pé, e com o tempo estar de pé virou um reflexo tão automático que ela perdeu um pouco o acesso ao que sente antes de conseguir processar o sentimento completamente, acabando por sempre ser racional demais porque entende que entende que emoção sem direção não serve a ninguém.Isso não significa que a personalidade dela se resume apenas a isso, claro. Nara ri fácil quando está à vontade, tem um senso de humor um pouco mais ácido que não combina muito com seu eyesmile, adora beber com os amigos depois de uma semana exaustiva de trabalho, e sabe ser amável como ninguém quando lhe dada a oportunidade. Ela só não distribui isso para qualquer um.Vale mencionar também que Nara é extremamente esforçada, trabalhadora, beirando ao workaholic simplesmente porque ama o que faz e se sua profissão fosse uma pessoa, ela com certeza estaria casada com ela e sendo a melhor esposa do mundo, devotada.


